Olhos de ressaca
Olhos de ressaca são a mais bela, poética e enigmática descrição que qualquer autor já escreveu. Machado de Assis não só exibe o seu gênio, como também revela o caráter mais fundamental da literatura, o seu limite instransponível que é a sua fonte inesgotável de beleza.
Escrever é estar sempre angustiado com a incapacidade da linguagem, a insuficiência da narração, como descrever o indescritível? Como expressar o inexpressável? A dor de uma mãe ao perder o filho, as estrelas vistas dos Andes, uma sinfonia de baleias no Atlântico.
Na literatura possuímos nada, somente as palavras. Diferente do cinema, por exemplo, a arte da síntese por excelência, onde um bom diretor pode expressar horror através da música tensa, revelar mistérios com um enquadramento, com um movimento certo de câmera, o drama na atuação contida de uma grande atriz em silêncio, ou falando poucas palavras. Aqui só possuímos as palavras, na realidade, talvez, elas nos possuam de alguma forma. A mais pobre das artes se torna a mais rica de todas, porque eternamente frustrada.
Quando as palavras escapam o que resta não pode nem ser nomeado. É no limite da incapacidade que a genialidade de Machado desabrocha. Nunca saberemos de fato o que são os olhos de ressaca. Não os olhos que viram Machado, veremos os olhos que encaramos nas páginas.
Somos convidados, pelo bruxo do Cosme Velho, a imaginar o inimaginável que ele conseguiu descrever em três palavras. Na prosa o vislumbre poético. Na longa prosa de um romance a essência de poeta. Muitas páginas já foram escritas, milhares poderiam ser escritas, mas nenhuma teria tanto significado quanto as três palavras.
Olhos de ressaca ou buraco negro?
Capitu penteava o cabelo na sala quando em vão Bentinho tentou lhe pregar um susto, foi possivelmente pego no reflexo de um espelho barato. Note que além de vagabundo, o espelho estava entre duas janelas. Reflexo, luz e imagem, Capitu viu Bentinho no mesmo lugar onde se enxergava. Ou, melhor dizendo, Bentinho se enxergou no espelho que refletia Capitu, não era exatamente isso?
Não vemos apenas a Capitu que ele enxergava? Ele não é o narrador? Por isso, apesar de divertida, a tentativa dos brasileiros ao longo da história de ter certeza sobre a traição de Capitu, será sempre frustrada. Nunca saberemos, talvez nem Machado soubesse, a beleza está exatamente aí.
Bentinho quer ver os olhos de Capitu. Lembra que disseram que eram “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Ele nem sabe o que isso significa, mas quer que confirmem o que pensa dela. Na verdade, a sua vontade que era oblíqua, a sua narração dissimulada. Olhando Capitu pelos cantos dos olhos, chegando sorrateiro na sala, encara Capitu pelas costas. Capitu se deixou examinar e Bentinho acreditou que os seus próprios olhos eram longos, que penetravam o interior sombrio...
Inicialmente nada de extraordinário. Até que uma onda avassaladora devastou os sentidos e a própria capacidade de descrição de Bentinho. Como ondas em uma tempestade castanha. Sem palavras pede socorro. Sem poder descrever o que via e sentia só conseguiu se afundar. Sim, nas mesmas vagas morenas vindas uma atrás da outra, impedindo que a cabeça ficasse fora das águas escuras.
As águas escuras que quase afogaram Bentinho não eram água salgada. Ele não sabia o que era. Era como o éter, alguma substância primordial, algum elemento que formava todo o universo. Não por acaso os olhos de ressaca pareciam com buracos negros esfomeados. Foi Machado que descobriu a existência desses olhos escuros que drenam tudo para o seu interior insaciável, bem antes de Einstein.
O fluido misterioso possuía uma força irresistível, uma gravidade inescapável, Bentinho tinha sido capturado. Os olhos eram como ondas que avançavam na praia e voltavam para o mar carregando tudo que tinham tocado. Bentinho tentou ser o astronauta que fugia do buraco negro que destruiria a nave. Vislumbrou o disco de luz na periferia do buraco, as luzes do corpo de Capitu, mas as luzes eram ondas, Machado se adiantara. Como ondas de ressaca formando sua crista, despencando num vale, um tsunami que varreria Bentinho da face da terra.
Bentinho pensou, submerso nas águas escuras dos olhos do universo, no tempo dessa troca de olhares. Segundos que foram eternos. Machado descobria a relatividade do tempo antes de Einstein. O próprio caráter da luz, nos olhos de Capitu, ondas e nada mais.
É a troca de olhares mais incrível da literatura mundial. É a descrição mais arrebatadora e poética dos olhos de uma pessoa.
Machado era um filósofo do espírito e um físico teórico da alma. Poucos escritores conseguiram penetrar tão fundo no fluido misterioso da humanidade. Poucos se atreveram a atravessar um buraco negro em busca da ressaca. Sem temer as vagas da incapacidade. Sem temer a gravidade do indescritível. Na tempestade, prestes a ser engolido pela gravidade inescapável, conseguiu encontrar palavras, as palavras que todos escritores sonham encontrar. E essas palavras não eram definitivas, não resolviam nada, pelo contrário, eram puro mistério. Ele navegou através da ressaca, caindo em um buraco negro, para encontrar três palavras.




